O que está acontecendo na França? Entenda os protestos e a crise por trás deles

A França vive dias de forte tensão, com distúrbios em várias cidades, críticas ao governo e preocupação com a economia. Veja, de forma simples, o que se sabe até agora, com base em análise do jornalista Tim Lister, da CNN.

Como tudo começou?

Com protestos de estudantes, desde o início do ano letivo de outono. Os jovens reclamam da precariedade das escolas, da falta de professores e das perspectivas ruins de emprego. Desde então, mais de 6.000 pessoas foram detidas nas manifestações, e mais de 100 escolas foram danificadas.

O que aconteceu no fim de semana?

Os protestos viraram distúrbios generalizados em grandes cidades. Houve roubos e saques em Paris, Marselha, Bordeaux e outras cidades, e a prefeitura de Limoges, prédio que sobreviveu às duas guerras mundiais, foi gravemente atingida por um incêndio, com o desabamento da torre do relógio. As estimativas falam em prejuízos de centenas de milhões de dólares, e cerca de 2.400 pessoas foram presas.

Como o governo reagiu?

O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, disse nesta segunda-feira (19) que o país vive uma “grande confusão, para dizer o mínimo”. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, ofereceu renúncia por causa da falha da polícia em conter os distúrbios. O presidente Emmanuel Macron condenou a violência em pronunciamento na TV no domingo (18), mas não apresentou propostas e viajou em seguida para uma visita de três dias aos países do Golfo.

Líder da ultradireita, Marine Le Pen, participa de ato em Paris • Reprodução/Reuters

O que dizem os políticos?

As reações foram de troca de acusações. O líder de esquerda Jean-Luc Mélenchon disse que o governo “abriu as portas para o caos” com suas táticas policiais, e Lecornu respondeu que não se pode pedir o fim da violência e ao mesmo tempo oferecer desculpas a quem a pratica.

Marine Le Pen, do partido de direita Reunião Nacional, culpou delinquentes das banlieues, áreas pobres onde vive boa parte da população imigrante, e disse que só uma “mão firme” como a dela restauraria a ordem. Jordan Bardella, presidente do mesmo partido, pediu que milícias antifascistas, grupos de extrema esquerda e os Black Blocs, que usam roupas pretas e máscaras em protestos para esconder a identidade, sejam classificados como organizações terroristas.

Por que o cenário político é tão difícil?

Segundo analistas, o problema vem da fragmentação. Depois das eleições antecipadas convocadas por Macron em 2024, que tiveram efeito contrário ao esperado, o Parlamento ficou paralisado. O centro político praticamente desapareceu, e os partidos Reunião Nacional e França Insubmissa passaram a crescer com o descontentamento. Os primeiros-ministros de Macron também não conseguiram aprovar um orçamento. O historiador Robert Zaretsky, da Universidade de Houston, avalia que o grande número de candidatos de centro pode favorecer, no segundo turno, um dos dois concorrentes que ele considera mais perigosos para a democracia.

E a economia?

A economia está estagnada. Os agricultores sofreram com um verão muito quente e seco, a alta mundial da energia pressionou a inflação, e o investimento das empresas caiu cerca de 1% no primeiro semestre, com juros mais altos. O turismo, uma fonte importante de receita, pode ser prejudicado pelas imagens de violência que circularam pelo mundo.

Qual é o problema da dívida?

A dívida pública francesa chegou a 119% do PIB no segundo trimestre, o dobro da meta da União Europeia. A França precisará emitir um valor recorde de 340 bilhões de euros em títulos, e nesta segunda os investidores exigiram um rendimento de 4,9% nos títulos de 10 anos. A Oxford Economics avalia que o impasse político pode se estender além das eleições de 2027, adiando a solução dos problemas das contas públicas.

O que os franceses pensam?

O clima é de pessimismo. Em pesquisa do instituto Ipsos-BVA, 85% disseram que o país está em declínio, e 98% se disseram insatisfeitos com a situação atual. O sentimento tem nome: déclinisme. A aprovação de Macron, que foi visto no início como antídoto contra essa sensação, hoje varia entre 15% e 17%.

O que vem pela frente?

Novos protestos estão marcados para o próximo fim de semana, e sindicatos planejam greves em novembro. A eleição presidencial acontece na primavera, e Marine Le Pen lidera as pesquisas. Alguns comentaristas comparam o momento às revoltas de 1968, que antecederam a renúncia do general Charles de Gaulle um ano depois.

Com informações da CNN Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *