Dívida externa do Brasil se aproxima de US$ 400 bilhões e bate recorde

A dívida externa do Brasil atingiu o maior valor da história e se aproxima da marca de US$ 400 bilhões. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que o endividamento externo do país chegou a US$ 397,5 bilhões em janeiro, considerando setor público, bancos e empresas.

O número é o mais alto em 56 anos de estatísticas. A dívida cresce de forma contínua desde 2023 e acumula aumento de 24,4% nesse período.

Apesar do avanço, analistas avaliam que a situação ainda não representa risco imediato para a economia brasileira. No entanto, defendem que o cenário precisa ser acompanhado com atenção, especialmente diante da possibilidade de novos choques externos.

Atualmente, o país ainda possui mais dólares em reservas do que dívidas no exterior. Mesmo assim, essa margem de segurança diminuiu e está no menor nível desde que o Brasil passou a ser considerado credor internacional, há cerca de 19 anos.

Há uma década, a diferença entre reservas e dívidas externas ultrapassava US$ 67 bilhões. Hoje, após descontar as obrigações externas, essa sobra caiu para menos de US$ 10 bilhões.

Segundo a economista do BTG Pactual, Iana Ferrão, o aumento da dívida não indica um desequilíbrio imediato, mas merece monitoramento.

“Não vemos um sinal de desequilíbrio iminente ou de insustentabilidade no curto prazo. Mas esse aumento da dívida merece atenção. A cobertura das reservas internacionais e de outros ativos externos, embora continue confortável, vem caindo”, afirma.

Déficit nas contas externas

Com a economia aquecida e mudanças no padrão de consumo dos brasileiros — como gastos com plataformas de streaming — o déficit nas transações correntes com o exterior aumentou significativamente.

O saldo negativo passou de US$ 27,1 bilhões em 2023 para US$ 69 bilhões no ano passado.

Esse déficit deixou de ser totalmente coberto pelos investimentos estrangeiros diretos, que chegaram a US$ 77,7 bilhões em 2025. Em alguns momentos dos últimos dois anos, o país precisou utilizar parte das reservas internacionais para cobrir o rombo.

Durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as reservas cresceram 12,2%, enquanto a dívida externa avançou em ritmo maior, com alta de 24,4%.

Esse movimento ocorreu, entre outros fatores, porque o Banco Central precisou vender dólares no mercado para conter turbulências cambiais, especialmente em dezembro de 2024, quando ocorreu a maior intervenção desde a adoção do regime de câmbio flutuante.

Mesmo com esse cenário, economistas e agências de classificação de risco não consideram a situação crítica.

Um dos fatores que sustentam essa avaliação é que as reservas internacionais ainda são cerca de três vezes maiores que as dívidas externas de curto prazo, que somam aproximadamente US$ 119,8 bilhões.

Participação do setor privado

A maior parte da dívida externa brasileira está concentrada no setor privado. Bancos, empresas e outras instituições respondem por cerca de três quartos do total.

A dívida externa dos bancos, por exemplo, aumentou 32% no último ano, ritmo superior ao registrado no setor público, que teve crescimento de 7,7%.

No caso do governo federal, a exposição ao câmbio é considerada baixa. Apenas 3,6% da dívida pública federal corresponde a títulos emitidos no exterior ou diretamente vinculados a moedas estrangeiras.

Captações no exterior

Mesmo com o aumento do endividamento, o Tesouro Nacional avalia que a posição externa do Brasil continua confortável.

O governo pretende manter a estratégia de emitir títulos no mercado internacional para diversificar investidores e buscar condições de financiamento mais favoráveis.

Entre as possibilidades avaliadas estão novas emissões em euros e até a primeira captação em yuan, moeda da China.

Segundo economistas, o Brasil ainda utiliza pouco o mercado internacional para financiar sua dívida quando comparado a outros países emergentes.

“O custo de financiamento lá fora é menor. O risco é um pouco maior, mas como a participação da dívida cambial é baixa, ainda existe espaço para crescer sem aumentar tanto o risco”, afirma o economista da XP Investimentos, Tiago Sbardelotto.

Perspectivas

Analistas avaliam que o déficit nas contas externas deve continuar elevado nos próximos anos.

Após atingir US$ 69 bilhões, a expectativa do mercado é que o saldo negativo diminua gradualmente e retorne para cerca de US$ 60 bilhões até 2030.

No entanto, mudanças estruturais no balanço de pagamentos — como aumento do consumo de serviços internacionais e investimentos em criptoativos — podem manter a pressão sobre as contas externas.

Mesmo assim, especialistas afirmam que o país ainda apresenta uma posição relativamente sólida, principalmente devido ao volume de reservas internacionais e ao fluxo contínuo de investimentos estrangeiros.

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