A guerra desencadeada em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã, provocou uma disparada nos preços do petróleo o barril de Brent saltou de cerca de 73 dólares para mais de 100 dólares nesta segunda-feira, uma alta de 37%. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo, elevou o risco de que o barril alcance entre 120 e 150 dólares. Em 2022, o valor passou de 130 dólares após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Os impactos para a economia global, porém, vão além do custo dos combustíveis fósseis e se estendem para países distantes do epicentro do conflito. A seguir, listamos os cinco principais riscos da intensificação da guerra no Irã para o Brasil:
1.Política de preços da Petrobras
O aumento no preço do petróleo coloca a Petrobras no centro de um dilema: nesta segunda-feira, 9, a defasagem entre os preços praticados pela estatal e o mercado internacional foi a 2,74 reais por litro de diesel e 1,22 real na gasolina, segundo a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom). A petrolífera está há mais de 300 dias sem reajustar o diesel. No Brasil, um em cada quatro litros de diesel consumido é importado.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, sinalizou que a empresa evitará aumentar os preços dos combustíveis no curto prazo em resposta a “movimentos nervosos” do mercado. Em ano eleitoral, a tentação de usar a Petrobras como amortecedor da inflação é ainda maior – repetindo um padrão histórico que já gerou dívidas bilionárias para a companhia. “Se a Petrobras realmente cumprisse o seu papel institucional, ou seja, o regime jurídico enquanto empresa de capital misto, deveria reajustar os preços desde já”, disse Pedro Rodrigues, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie).
Mas a pressão é crescente: refinarias privadas em alguns estados brasileiros reajustaram o diesel em até R$ 0,57 por litro na semana passada, e distribuidores estão repassando os aumentos aos postos mesmo sem movimento da estatal.
A XP Investimentos estima que um aumento de 10% no Brent produz um impacto de 0,25 ponto percentual na inflação brasileira, e considera que o repasse ao consumidor é apenas questão de tempo caso a crise se prolongue.
2. Política de juros do Banco Central
Na reunião de janeiro de 2026, o Copom manteve a taxa Selic em 15% ao ano patamar próximo do mais alto em duas décadas e sinalizou que o ciclo de cortes começaria em março, e muitos analistas apostavam em redução de 0,50 ponto percentual. A guerra mudou radicalmente esse cenário. O diretor de política monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou que a autarquia “não pode ignorar” as consequências do conflito ao calibrar os juros, já que a guerra adiciona uma nova camada de risco às perspectivas de inflação e crescimento. No mercado de juros futuros, as taxas dispararam e os investidores passaram a apostar majoritariamente em um corte menor, de apenas 0,25 ponto percentual, na reunião do Copom marcada para 17 e 18 de março.
O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse na semana passada que, se a instabilidade persistir e os custos começarem a contaminar os preços domésticos, a guerra pode “antecipar a parada” do ciclo de cortes de juros. A alta do dólar, resultado da aversão global ao risco, amplifica o problema, já que encarece as importações no Brasil e deteriora as expectativas inflacionárias.
Se a inflação superar 3,5%, economistas alertam que o Banco Central pode ser forçado a interromper os cortes e até elevar os juros, configurando o risco de estagflação – economia estagnada com inflação elevada. Antes do conflito, o mercado projetava a Selic em 12% no fim de 2026; agora, essa trajetória está sob questionamento.
3. Exportações brasileiras
O Oriente Médio é mercado estratégico para o agronegócio brasileiro. A região absorveu 12,4 bilhões de dólares em produtos agrícolas do Brasil em 2025, com o Irã recebendo 23,6% desse total, segundo o Insper Agro Global. O país persa é o maior comprador individual de milho brasileiro, tendo absorvido 9 milhões de toneladas no ano passado – cerca de 22% de tudo que o Brasil exporta do grão. No caso do frango, o Oriente Médio absorveu 29% das exportações brasileiras em 2025 cerca de 1,5 milhão de toneladas, num fluxo comercial que movimenta bilhões de dólares por ano. O Brasil é ainda o maior produtor e exportador mundial de carne halal, e a região absorveu 29% das exportações brasileiras de frango em 2025.
Com o bloqueio do Estreito de Ormuz e o cancelamento de coberturas de seguro para embarcações na região, os custos de frete e seguro das cargas dispararam, criando entraves logísticos significativos. O volume de embarcações cruzando Ormuz despencou, depois que grandes seguradoras marítimas retiraram as apólices contra riscos bélicos na região.
Dez embarcações aguardavam para carregar mais de 600 mil toneladas de soja e farelo com destino ao Irã – carga que, num cenário de conflito prolongado, teria de ser redirecionada a outros mercados, provavelmente a preços menos vantajosos.
4. Fornecimento de fertilizantes
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. O Oriente Médio concentra a maior fatia das exportações globais de ureia – são cerca de 20 milhões de toneladas por ano, o que equivale a pouco mais de um terço de todo o comércio marítimo do insumo, segundo a consultoria Argus Media. O Irã responde por uma fatia relevante desse mercado: cerca de 11% da ureia e 5% da amônia comercializadas internacionalmente, de acordo com a consultoria StoneX.
Dados da Argus Media mostram que o Brasil recebeu 8,2 milhões de toneladas de ureia em 2025. Desse total, 1,5 milhão – ou 18,4%- veio do Irã e de Omā, país vizinho cuja produção depende em parte do gás iraniano. A ureia é a base da adubação nitrogenada de lavouras como milho, café e trigo, e é fabricada a partir do gás natural – commodity cujos preços também saltaram com o conflito.
O desabastecimento (acompanhado de encarecimento) desses insumos seria prejudicial para a produção agrícola brasileira, um dos motores da economia nacional.
5. Diplomacia brasileira
A guerra no Irã colocou o Brasil em posição diplomática delicada, preso entre a necessidade de manter uma relação construtiva com os Estados Unidos – com quem conduz negociações tarifárias e tem reunião presidencial marcada para março e o compromisso de solidariedade com o Irã, membro pleno dos Brics, grupo de países em desenvolvimento, desde 2024.
O Itamaraty publicou nota condenando os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, qualificando-os como grave ameaça à paz e defendendo que “a negociação entre as partes é o único caminho viável”. No entanto, a chancelaria evitou críticas diretas a Trump e a estratégia é “não bater de frente” com o governo americano para preservar a possibilidade de atuar como mediador.
O conflito, porém, expôs fissuras profundas dentro do Brics. Brasil, China e Rússia, membros fundadores do grupo, condenaram explicitamente os ataques ao Irã, mas por razões distintas – a Rússia tem vínculos militares com Teerã e a China é grande compradora do petróleo iraniano. Já a Índia e os membros árabes do bloco, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – alvos de retaliações iranianas, adotaram posturas neutras ou ambíguas, impossibilitando uma declaração conjunta do bloco.






